O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

12 de outubro de 2017

500 Anos da Reforma Protestante: Os Pre-Reformadores

500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE: OS PRE-REFORMADORES

Pr. Gilson Soares dos Santos

     Estamos vivendo os 500 Anos da Reforma Protestante. No próximo dia 31 de Outubro completam-se 500 anos. Pois foi exatamente neste dia que Martinho Lutero expos suas 95 Teses, afixando-as na porta da Catedral de Wittenberg.

     Antes da Reforma Protestante, tivemos o que podemos chamar de PRE-REFORMA. Na verdade, ela não vai acontecer em um único momento, tampouco em um só século. O período que consideraremos como pré-reforma não se dá em um único século, nem em um único lugar ou mesmo por um único homem.

     Diante disso, veremos um pouco sobre os pré-reformadores e, assim, estaremos vendo a PRE-REFORMA DA IGREJA.

3.1_ TOMÁS BRADWARDINE (1290-1349).

     Tomás Bradwardine (1290-1349), teólogo e matemático inglês. Nasceu em Sussex e educou-se em Oxford. Foi chanceler na Universidade de Oxford. Foi nomeado arcebispo de Cantuária. Foi intitulado de “Doutor Profundo”.  Realçava a graça de Deus na salvação.

     “Partindo do axioma de que Deus é principio absoluto de tudo e suprema causa de todo acontecimento, Bradwardine, procedendo matematicamente, deduz de modo rigoroso que a vontade divina não apenas é causa suficiente, mas também é a causa determinante dos atos humanos voluntários. E isso, na sua opinião, significa que Deus pode determinar a vontade humana no cumprimento de atos livres.”[1]

     “Contradizia os seguidores de Pelágio, afirmando que a vontade de Deus é a primeira causa  responsável por todos os efeitos no mundo, incluindo as ações humanas. Influenciou várias figuras contemporâneas e posteriores, incluindo Wycliffe, tradutor da Bíblia para o inglês. Morreu de praga, pouco depois de haver sido nomeado arcebispo de Cantuária”.[2].

3.2_ GREGÓRIO DE RIMINI (1300-1358)

     Gregório de Rimini foi um filósofo italiano. Tornou-se monge agostiniano. Nasceu em Rimini, próximo a Veneza, na Itália. Herdou sua teologia de Agostinho. Realçava a graça de Deus na salvação.

3.3_ JOHN WYCLIFFE (1329-1384)

     John Wycliffe sofre influência das concepções de Tomás Bradwardini. Foi forte opositor ao acúmulo de riquezas da Igreja e à venda indulgências. Também defendia a autoridade soberana das Escrituras.

     “Ele foi ordenado sacerdote, e mudou-se para Oxford, onde suas opiniões teológicas lhe tornaram a figura mais controversa da Universidade, e suas conexões com a família real o tornaram influente. Por quase toda a vida de Wycliffe os papas residiram em Avignon e, assim, ele cresceu em uma atmosfera em que a autoridade religiosa era questionada de forma constante. [...] Começou a identificar publicamente a Bíblia, e não o papa, como a suprema fonte de autoridade espiritual. O papado, ele argumentava, era apenas uma invenção humana, enquanto a Bíblia, detentora de autoridade, determinava a validade de todas as crenças e práticas religiosas. Com base nisso, ele rejeitava e doutrina extremamente filosófica da transubstanciação.”[3].

    “Em poucos anos, esse discurso deixou Oxford – e todo o país – fervilhando. Wycliffe foi obrigado a aposentar-se. [...] No entanto, não ficou ocioso nesse período: escreveu tratados populares explicando seus pontos de vista, comissionou pregadores e organizou uma tradução da vulgata (versão latina da Bíblia) para o inglês. Felizmente para Wycliffe, ele morreu em 1384, antes de o Concílio de Constança condená-lo por heresia (depois disso seus restos mortais foram exumados, queimados e espalhados). Ainda assim, seu legado foi grande. Com a Bíblia em inglês em suas mãos, seus seguidores na Inglaterra dedicaram-se à prática ilegal de ler a Bíblia em grupo e em segredo. Foi provavelmente por isso que eles ficaram conhecidos como “lollardos”, um termo que provavelmente significava “aquele que sussurra”, em referência ao hábito de ler a Bíblia em segredo. Eles consistiriam uma audiência muito receptiva para a Reforma que chegaria um século depois.”

3.4_ JOHN HUSS (1373-1384)

     John Huss fez oposição às práticas do catolicismo romano: Definia a Igreja por uma vida semelhante à de Cristo e não pelos sacramentos. Opunha-se à venda de indulgências, bem como a adoração às imagens. Defendia veementemente a autoridade das Escrituras. Ele foi queimado em praça pública.

     “Huss foi excomungado e convocado ao Concílio de Constança para defender suas opiniões. Previsivelmente, ele se encontrava muito relutante quanto ao risco de ser queimado como herege ao se lançar com tanta facilidade na cova dos leões; contudo, foi-lhe dada a garantia de salvo-conduto e, assim, ele prosseguiu. A garantia nada valia; ele foi preso de imediato e, depois de seis meses na prisão e de um julgamento falso em que ele se recusou a renunciar suas opiniões, John Huss foi condenado a morte por heresia em 1415.”[4]

     O julgamento e condenação de Huss nos é contado, em detalhes, por Justo Gonzalez. Vejamos os detalhes do julgamento e condenação:

     “No dia 5 de junho de 1415 Huss compareceu diante do concilio. [...] Quando Huss foi levado para a assembleia, ele estava acorrentado, como se tivesse tentado fugir ou se já tivesse sido julgado. Foi acusado formalmente de ser herege e de seguir as doutrinas de Wycliffe. Huss tentou expor suas opiniões, mas a algazarra foi tamanha que ele não se podia fazer ouvir. Por fim, foi decidido adiar a questão para o dia 7 do mesmo mês. [...]  O processo de Huss durou mais três dias. Repetidamente ele foi acusado de herege. [...] O concilio pedia unicamente que Huss se submetesse a ele, retratando-se das suas doutrinas. Ele, no entanto, não estava disposto a escutar nem crer no acusado, quanto a quais eram as doutrinas que tinha crido e ensinado na verdade. Uma simples retratação teria bastado. [...] A resposta de Huss foi firme: “Apelo a Jesus Cristo, o único juiz todo-poderoso e totalmente justo. Em suas mãos, eu deponho a minha causa, pois ele há de julgar cada um não com base em testemunhos falsos e concílios errados, mas na verdade e na justiça”.”[5].

     “Por vários dias, deixaram-no encarcerado, na esperança de que fraquejasse e se retratasse. Muitos foram pedir-lhe que o fizesse, talvez sabendo que sua condenação seria uma mancha indelével para o concilio de Constança. João Huss, no entanto, continuou firme.”[6].

     “Por fim, no dia 6 de julho, ele foi levado para a catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois lhe cortaram o cabelo para estragar a tonsura, fazendo-lhe uma cruz na cabeça. Por último, colocaram-lhe na cabeça uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A caminho do suplício, ele teve de passar por uma pira onde seus livros eram queimados. Mais uma vez, pediram-lhe que se retratasse, e mais uma vez ele negou com firmeza. Por fim, orou, dizendo: “Senhor Jesus, por ti sofro com paciência essa morte cruel. Rogo-te que tenhas misericórdia dos meus inimigos” . Morreu cantando os salmos.”[7].

3.5_ JOÃO DE WESSEL (1420-1489)

     João de Wessel foi um teólogo alemão (alguns afirmavam que era holandês), Ia contra os ensinamentos católicos. Negava o dogma da transubstanciação e opunha-se à venda de indulgências e ao celibato clerical. Frisava a autoridade das Escrituras, negava a autoridade do Papa. Fazia parte da Comunidade dos Irmãos da Vida Comum. Morreu na prisão depois de ser condenado por heresia e depois de se retratar.

3.6_ JERÔNIMO SAVONAROLA (1452-1498)

     Jerônimo de Savonarola era um monge dominicano italiano. Pregava contra a imoralidade papal. Foi enforcado e queimado por heresia.

     “Jerônimo era o terceiro dos sete filhos da família. Nasceu de pais cultos e mundanos, mas de grande influência. Seu avô paterno era um famoso médico na corte do duque de Ferrara e os pais de Jerônimo planejavam que o filho ocupasse o lugar do avô. No colégio, era aluno esmerado. Mas os estudos da filosofia de Platão e de Aristóteles, deixaram-lhe a alma sequiosa. Foram, sem dúvida, os escritos de Tomaz de Aquino que mais o influenciaram (a não ser as próprias Escrituras) a entregar inteiramente o coração e a vida a Deus. Quando ainda menino, tinha o costume de orar e, ao crescer, o seu ardor em orar e jejuar aumentou. Passava horas seguidas em oração. A decadência da igreja, cheia de toda a qualidade de vício e pecado, o luxo e a ostentação dos ricos em contraste com a profunda pobreza dos pobres, magoavam-lhe o coração.”[8].

     “Depois de passar sete anos no mosteiro de Bolongna, frei (irmão) Jerônimo foi para o convento de São Marcos, em Florença. Grande foi o seu desapontamento ao ver que o povo florentino era tão depravado como o dos demais lugares. (Até então ainda não reconhecia que somente a fé em Deus salva o pecador.)”[9].

     “Certo dia, ao dirigir-se a uma feira, viu, repentinamente, em visão, os céus abertos e passando perante seus olhos todas as calamidades que sobrevirão à igreja. Então lhe pareceu ouvir uma voz do Céu ordenando-lhe anunciar estas coisas ao povo. [...] Convicto de que a visão era do Senhor, começou novamente a pregar com voz de trovão. Sob a nova unção do Espírito Santo a sua condenação ao pecado era feita com tanto ímpeto, que muitos dos ouvintes depois andavam atordoados sem falar, nas ruas. Era coisa comum, durante seus sermões, homens e mulheres de todas as idades e de todas as classes romperem em veemente choro.”

     “Contudo, o sucesso de Savonarola foi muito curto. O pregador foi ameaçado, excomungado e, por fim, no ano de 1498, por ordem do Papa, foi queimado em praça pública. Com as palavras: "O Senhor sofreu tanto por mim!", terminou a vida terrestre de um dos maiores e mais dedicados mártires de todos os tempos.”[10]

     A fim de facilitar os estudos, transcrevemos a seguir um Quadro dos Precursores da Reforma, os Pré-Reformadores. Este Quadro pode ser encontrado no Livro História da Igreja em Quadros.[11]


OS PRÉ-REFORMADORES


NOMES

DATAS

DESAFIOS PARA A IGREJA

DETALHES PESSOAIS








TOMÁS BRADWARDINE





1290-1349


Realçava a graça de Deus na salvação.


Teólogo e matemático inglês.
Foi nomeado Arcebispo de Cantuária (1349)
Morreu vítima da peste negra.



GREGÓRIO DE RIMINI



m.1358.

Realçava a graça de Deus na salvação.



Filósofo italiano.
Tornou-se monge agostiniano.




JOÃO WYCLIFFE





1329-1384

Negava a Transubstanciação.
Opunha-se ao acúmulo de riquezas da Igreja e à venda de indulgências.
Frisava a autoridade das Escrituras


Foi professor da Universidade de Oxford.
Foi forçado a aposentar-se em consequência da revolta dos camponeses (1381)
Traduziu a maior parte da vulgata para o inglês.
Seu corpo foi exumado e queimado em 1428.




JOÃO HUSS




1373-1415

Definia a Igreja por uma vida semelhante à de Cristo e não pelos sacramentos.
Opunha-se à venda de indulgências e à veneração de imagens.
Reforçava a autoridade das Escrituras.


Sacerdote da Boêmia.
Tornou-se professor da Universidade de Praga.
Foi queimado em praça pública por ordem do Concílio de Constança.



JOÃO DE WESSEL




1420-1489

Negava a transubstanciação.
Opunha-se á venda de indulgências e ao celibato clerical.
Frisava a autoridade das Escrituras.


Teólogo alemão.
Membro dos irmãos da Vida Comum.
Morreu na prisão depois de ser condenado por heresia e depois de se retratar.

JERÔNIMO DE SAVONAROLA


1452-1498

Pregava contra a imoralidade papal.


Monge dominicano italiano
Foi enforcado e queimado por heresia em Florença.

DESIDÉRIO ERAMOS


1466-1536

Atacou a incoerência e a hipocrisia na Igreja.

Humanista holandês.
Compilou o texto do NT grego usado por Lutero.
Satirizou impiedosamente as falhas da Igreja na obra Elogio da Loucura.



[1]  REALE, Giovani. ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Patrística e Escolástica. Vol.2. 2Ed.  São Paulo: Paulus. 2005.  p324
[2]  CHAMPLIN, Russel N. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 1. São Paulo: Hagnos. p559
[3]  REEVES, Michael. A Chama Inextinguível: Descobrindo o Cerne da Reforma. Brasília: Monergismo. 2016. p34.
[4]  REEVES, Michael. A Chama Inextinguível: Descobrindo o Cerne da Reforma. Brasília: Monergismo. 2016. p36-37.
[5]  GONZALEZ, Justo L. História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Mártires até a Era dos Sonhos Frustrados. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova. 2011. P497.
[6] Idem. p498.
[7]  Idem.
[8] BOYER, Orlando. Heróis da Fé. 15ed. Rio de Janeiro: CPAD. 1999. p9.
[9]  Idem. p10.
[10] Idem. p12.
[11]  WALTON, Robert C. história da Igreja em Quadros. São Paulo: Vida. 2000. P46.

5 de setembro de 2017

Hino Pela Pátria


HINO PELA PÁTRIA

Pr. Gilson Soares dos Santos

Estamos na Semana da Pátria, em nosso país, o Brasil. Não sei como serão as comemorações em todo o Brasil. Na verdade, nem sei se tem muito o que comemorar.

Mas uma coisa sei: precisamos orar pelo nosso país. Por isso estou postando este Hino Pela Pátria, que é uma verdadeira oração pelo nosso país.

O Hino Oração Pela Pátria, Nº 622 do Hinário Salmos e Hinos, é uma verdadeira oração pelo país.

Este hino foi composto por Sarah Poulton Kalley, em 1888. Ele é inspirado em Siegfried Augustus Mahlmann (1771-1826).

Então, aproveitem: cantem, toquem e façam essa oração pela pátria, vendo o vídeo abaixo:


627 – HINO PELA PÁTRIA

Divino Salvador, Contempla com favor
Nosso país!
Dá-nos interna paz, Governo bom, capaz, Dita que satisfaz,
Sorte feliz.

Olhamos para Ti: Vem dominar aqui,
Ó Rei dos reis!
Dirige o pátrio lar; Ensina a governar Conforme o Teu mandar,
Por justas leis.

Ao chefe da nação Outorga a direção
Do Teu amor;
Guia-o no bem servir E, no eternal porvir, De Ti, Senhor, ouvir
Doce louvor.

A cara pátria tem Sustento e todo o bem
De Ti, Senhor!
Aos pobres dá comer E a todos vem fazer, Ó bom Senhor, viver
Em mútuo amor!

Do crime e rebelião Concede a proteção
Que é divinal.
Guardar-nos vem, Senhor, De guerras e terror; Sê nosso defensor;
Desvia o mal.

Poder supremo tens! Depara os altos bens
Da salvação.
Brilhe a benigna luz Que o Teu favor produz! Reine o Senhor Jesus
Sobre a nação!

2 de agosto de 2017

O que pensou Aristóteles sobre Deus, a alma, as virtudes e a felicidade


O QUE PENSOU ARISTÓTELES SOBRE DEUS, A ALMA, AS VIRTUDES E A FELICIDADE

Gilson Soares dos Santos

I_ Aristóteles

     Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira e morreu em Atenas. Foi aluno de Platão e tutor de Alexandre, o grande.  Tratou de diversos temas em seus escritos filosóficos, por exemplo, física, metafísica, lei, poesia, drama, música, lógica, retórica, governo, ética, psicologia, biologia e zoologia. Era filho de Nicômaco, que era médico. Aos 17 anos partiu para Atenas, na Grécia, e lá tornou-se discípulo de Platão. Veremos os pontos principais de Aristóteles que podem estar ligados a questões religiosas.

1.1_ Sobre Deus

     Para Aristóteles, Deus é o MOTOR IMÓVEL. Deus é a substância supra-sensível. Como ele chegou a essa tese do Motor Imóvel? Buscando as causas e os primeiros princípios. Segundo ele, “quem busca as causas e os princípios primeiros necessariamente deve encontrar Deus, porque Deus é a causa e o princípio primeiro por excelência.”[1]. Vejamos como ele descreve o Motor Imóvel, que é Deus, da seguinte maneira:

"De tal principio, portanto, dependem o céu e a natureza. E o seu modo de viver é o mais excelente: é aquele modo de viver que só nos é concedido por breve tempo. E Ele está sempre nesse estado. Para nós, isso é impossível, mas para Ele não é impossível, porque o ato do seu viver é prazer. Também para nos são sumamente agradáveis a vigília, a sensação e o conhecimento, precisamente porque são ato e, em virtude disso,
também esperanças e recordações. (. ..) Assim, se nessa feliz condição em que por vezes nos encontramos Deus se encontra perenemente, isso é maravilhoso; se Ele se
encontra em uma condição superior, é ainda mais maravilhoso. E Ele efetivamente se encontra nessa condigção. Ele também é Vida, porque a atividade da inteligência é vida e Ele é precisamente essa atividade. E sua atividade, que subsiste por si mesma, é vida ótima e eterna. Com efeito, dizemos que Deus é vivente, eterno e ótimo, de modo que a Deus pertence uma vida perenemente contínua e eterna: isso, portanto, é Deus.".[2].

     Giovani Reale e Dario Antiseri, em História da Filosofia, Vol 1, ainda traz o seguinte comentário sobre o Deus, segundo Aristóteles:

Mas o que pensa Deus? Deus pensa o que é mais excelente. E a coisa mais excelente
é o próprio Deus. Deus, portanto, pensa a si mesmo, é atividade contemplativa de si mesmo: "é pensamento de pensamento". [...] Deus, portanto, é eterno, imóvel, ato puro, privado de potencialidade e de matéria, vida espiritual e pensamento de pensamento. Sendo assim, obviamente, "não pode ter nenhuma grandeza", devendo ser "sem partes e indivisível". E também deve ser "impassível e inalterável".[3].

1.2_ Sobre a alma

     Vejamos, segundo Reale e Antiseri, como Aristóteles descrevia a alma:

A alma e a "forma" (em sentido ontológico), a "entelequia" (isto é, o ato, a perfeição) de um corpo. Todavia, os seres vivos não tem todos as mesmas funções e, portanto, terão princípios vitais (ou seja, almas) diferentes, conforme as funções especificas que lhes são próprias:
1) os vegetais, que podem apenas reproduzir-se e crescer, A alma terão alma adequada a estas suas faculdades, ou seja, alma e suas atividades vegetativa;
2) os animais, que tem também percepção do mundo e capacidade de movimento, seriam igualmente dotados de alma sensitiva;
3) finalmente, os homens que têm também a faculdade de raciocinar seriam providos, além de alma vegetativa e de alma sensitiva, igualmente de alma racional.[4].

     Aristóteles não cria, como Platão, na imortalidade da alma. Para ele, a alma não existe fora do corpo. Segundo seu ensino, no Livro De Alma, a alma nada sente, nada sofre sem o corpo. Alma não subsiste fora do corpo nem o corpo existe sem a alma. Os dois formam uma unidade. Sendo assim, Aristóteles não era Dicotomista (corpo e alma), não era Tricotomista (corpo, alma e espírito), porém, era Monista (o corpo e a alma formam uma unidade, de modo que um não existe sem o outro).

1.3_ Sobre virtude

     Aristóteles falava sobre a virtude ética a qual é adquirida com a repetição de uma série de atos sucessivos, ou seja, através do hábito.

Assim, as virtudes tornam-se como que "hábitos", "estados" ou "modos de ser" que nós mesmos construímos segundo o modo indicado. Como são muitos os impulsos e tendências que a razão deve modelar, também são muitas as "virtudes éticas", mas todas tem uma característica essencial comum: os impulsos, as paixões e os sentimentos tendem ao excesso ou à falta (ao muito ou ao muito pouco); intervindo, a razão deve impor a "justa medida", que é o caminho intermediário ou "meio-termo" entre os dois excessos. A coragem, por exemplo, é o caminho intermediário entre a temeridade e a timidez, e a liberalidade é o justo meio entre a prodigalidade e a avareza.[5].
     Lembremos que “meio termo” aqui não é o mesmo que mediocridade. Porém “meio termo” é “uma culminância”, é um valor, é, na verdade, a vitória da razão sobre os instintos.

Dentre todas as virtudes éticas, destaca-se a justiça, que é a "justa medida" segundo a qual se distribuem os bens, as vantagens, os ganhos e seus contrários. E, como bom grego, Aristóteles reafirma o mais elevado elogio a justiça: "Pensa-se que a justiça é a mais importante das virtudes, e que nem a estrela vespertina nem a estrela matutina sejam tão dignas de admiração quanto ela. E com o provérbio dizemos: 'Na justiça esta compreendida toda virtude."[6].

1.4_ Sobre a felicidade

Todas as ações humanas tendem a "fins" que são "bens". O conjunto das ações humanas e o conjunto dos fins particulares para os quais elas tendem subordinam-se a um "fim ultimo", que é o "bem supremo", que todos os homens concordam em chamar de "felicidade".[7].

     Mas, o que é felicidade, segundo Aristóteles? Em primeiro lugar, vejamos o que não é a felicidade, segundo o filósofo:

Para a maioria, é o prazer e o gozo. Mas uma vida gasta com o prazer é uma vida que torna "semelhantes aos escravos", e "digna dos animais". [...] Para alguns, a felicidade é a honra (para o homem antigo, a honra correspondia aquilo que é o sucesso para o homem de hoje). Mas a honra é algo extrínseco que, em grande parte, depende de quem a confere. E, de qualquer maneira, vale mais aquilo pelo qual se merece a honra do que a própria honra, que é resultado e consequência. Para outros, a felicidade está em juntar riquezas. Mas esta, para Aristóteles, é a mais absurda das vidas, chegando mesmo a ser vida "contra a natureza", porque a riqueza é apenas meio para outras coisas, não podendo portanto valer como fim.[8].

     Reale e Antiseri nos mostram em que consiste a felicidade, segundo Aristóteles:

O bem supremo realizável pelo homem (e, portanto, a felicidade) consiste em aperfeiçoar-se enquanto homem, ou seja, naquela atividade que diferencia o homem de todas as outras coisas. Assim, não pode consistir no simples viver como tal, porque até os seres vegetativos vivem; nem mesmo viver na vida sensitiva, que é comum também aos animais. Só resta, portanto, a atividade da razão. O homem que deseja viver bem deve viver, sempre, segundo a razão.[9].



[1]  REALE, Giovani. ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia pagã antiga. Vol 1. São Paulo: Paulus. 2003. p.195.
[2]  Idem. p.202.
[3]  Idem.
[4]  Idem. p.212.
[5]  Idem. p.219-220.
[6]  Idem..
[7]  Idem. p.218.
[8]  Idem.
[9]  Idem.

15 de junho de 2017

Salmos e Hinos: O Pioneiro Esquecido


SALMOS E HINOS: O PIONEIRO ESQUECIDO

Luciana Barbosa*

Às vezes questiono acerca da história do Salmos e Hinos no contexto que me encontro desde criança até os dias de hoje, onde esse belíssimo hinário é, e sempre foi esquecido e desvalorizado pelos cristãos, principalmente os que fazem parte das Igrejas Congregacionais do Brasil em suas diversas denominações. Acredito que isto aconteça por desconhecimento de sua história e origem. E para começar esse artigo gostaria de contar uma história sobre este hinário e os hinos que compõem essa coletânea tem contribuído para levar almas aos pés de Cristo.

Conta-se que certo missionário Evangélico quando se encontrava em Sião conheceu um descendente de certa tribo habitando nas montanhas, na maior selvageria e sem qualquer conhecimento da religião cristã. Sentiu desejo de ir até lá e ensinar-lhes o amor de Deus. Seus amigos tentaram dissuadi-lo da ideia. De joelhos, ele procurou a resposta e a obteve, ouvindo uma voz, como vinda do céu, que dizia: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura." Entendeu ser essa a vontade de Deus. Durante a viagem, sentiu-se encorajado com as palavras que ouvia em seu coração: "Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos." Depois de longa viagem, chegou ao lugar desejado. Viu-se cercado de uma multidão de selvagens aguerridos, ameaçadores, armados de flechas e lanças. O missionário não temeu. Tomando seu violino, afinou-o e começou a tocar e a cantar o belo hino que assim começa "Saudai o nome de Jesus!" número 231 do Salmos e Hinos. Enquanto cantava e tocava, mantinha-se de olhos cerrados. Ao chegar na última quadra do hino que diz: "Ó raças, tribos e nações, ao Rei divino honrai", abriu os olhos e viu, com grande alegria, que os selvagens haviam depositado suas armas no chão e permaneciam extasiados, comovidos com a música que ouviam. Fazendo-se entender, pediram ao missionário que permanecesse com eles, o que ele aceitou. Aprendeu-lhes a língua e começou a ensinar-lhes a Salvação em Jesus Cristo. E muitas vezes cantaram com profunda gratidão: Saudai o nome de Jesus!

Quando falamos do Salmos e Hinos somos levados automaticamente a associa-lo a figura de Robert Kalley e sua leal esposa Sarah Kalley os fundadores da primeira igreja evangélica em língua portuguesa fundada no Brasil no ano de 1855 na cidade do Rio de Janeiro, a igreja Fluminense que encontra-se lá até os dias de hoje. No inicio eram 50 salmos e hinos que foram usados pela primeira vez em 17 de novembro de 1861, seis dias após sua chegada ao Brasil. Desta maneira, "Salmos e Hinos" transformou-se na gênese de uma espécie de "teologia comum" às diversas denominações, servindo por décadas como único instrumento litúrgico em igrejas e congregações muitas vezes dirigidas dos diversos tipos de governo eclesiástico, bem como posições teológicas conflitantes (formas de batismo; predestinação x livre arbítrio; ceia memorialista x ceia com presença real;etc). Aqui abro um parênteses, onde destaco a IPB e Batistas, quando observamos a história do hinário das igrejas Presbiterianas (Novo cântico) e o das igrejas Batistas (Cantor Cristão) concluímos que estes hinários tiveram como base o Salmos e hinos.

A história do novo cântico nos conta que o hinário usado pela Igreja Presbiteriana do Brasil era o “Salmos e hinos”. Mas, por julgarem-no passível de correções, no aspecto linguístico e doutrinário o concilio determinou a criação de um hinário que melhor servisse a IPB e outras igrejas de denominações irmãs. Foi criado um hinário provisório com hinos do reverendo Jerônimo Gueiros, Antônio Almeida e de outros autores, sendo utilizado nas igrejas do Norte e Nordeste. A preocupação e o zelo pela Escritura levaram estes reverendos a cristalizar no coração da IPB, uma de suas maiores necessidades, isto é, cantar com mais convicção e fidelidade às doutrinas bíblicas. Hoje a IPB tem seu hinário próprio, porém até esse dia chegar utilizava-se o Salmos e hinos. 

Já o cantor cristão não é muito diferente, foi o segundo hinário dos evangélicos brasileiros. Foi publicado em 1891 e sua primeira versão continha apenas 16 hinos; já em 1921 saiu a 17° edição com 571 hinos e nos diz a história dos batistas que esse valor, naturalmente deve ser dado também aos “Salmos e hinos”, pois, beberam dessa fonte durante anos.

Infelizmente hoje não é isso que acontece, a preferência é pelo que é dos outros e muitas vezes tais músicas professam aquilo que não professamos como nossa confissão de fé. Hoje mais de 150 anos, e com mais de 500 hinos próprios, um mais belo que o outro são negligenciados, busca-se outras fontes que muitas vezes derramam águas sujas. Até quando isso irá acontecer? Até quando o pioneiro ficará no esquecimento? E para concluir da melhor forma possível, deixo o hino que foi citado no inicio, que conduziu o povo ao arrependimento e a busca de Deus.

COROAI 231

1. Saudai o nome de Jesus! 
Arcanjos, adorai! 
Ao Filho do bendito Deus, 
Com glória coroai! 
2. Ó redimida geração 
Do bom e eterno Pai, 
Ao grande Autor da salvação 
Com glória coroai! 
3. Ó perdoados cujo amor 
Bem triunfante vai, 
Ao Deus varão, Conquistador, 
Com glória coroai! 
4. Ó raças, tribos e nações, 
Ao Rei divino honrai! 
A Quem quebrou os vis grilhões 
Com glória!

Salve o nosso Salmos e Hinos!