O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

1 de agosto de 2012

A Universalidade da Complacência no Belo, em Immanuel Kant


A UNIVERSALIDADE DA COMPLACÊNCIA NO BELO, EM IMMANUEL KANT

Gilson Soares dos Santos

Immanuel Kant, buscando definir o belo, se propõe a tarefa de mediar entre a faculdade do entendimento (juízo lógico) e a faculdade apetitiva (juízo prático). Ele encontra na faculdade reflexiva (juízo de gosto) aquela que vai mediar entre esse dois mundos, aproximando a razão pura da razão prática. Para ele, quando a questão é estética, nem é juízo lógico nem juízo prático, mas sim de gosto. Pois a representação do objeto não visa o conhecimento, mas o sentimento de prazer ou desprazer. É por isso que ele se propõe a tarefa de definir a complacência que determina o juízo de gosto como desinteressada. Nesse juízo de gosto há uma particular determinação de universalidade, a universalidade da complacência no belo. Kant busca expor o que é essa universalidade da complacência no belo, para isso, percorre um caminho fazendo distinções entre a complacência ligada a interesse e a complacência desinteressada.

O juízo de gosto, segundo Kant, é aquilo que se expressa no juízo estético. O belo não é uma propriedade objetiva das coisas, mas a propriedade que nasce da relação entre o sujeito e o objeto, pela faculdade da imaginação, ligada ao seu sentimento de prazer ou desprazer. A representação é referida somente ao sujeito e ao seu sentimento de vida. Pode-se compreender, então, que não é um juízo lógico, mas estético. E esse juízo não contribui para o conhecimento, pois não é de caráter conceitual. Por isso, para Kant, a estética não é ciência, porque não opera por conceitos. E ainda quando as representações dadas são racionais, mas no juízo são referidas meramente ao sujeito, ao sentimento de prazer e desprazer, elas são sempre estéticas.
            
O juízo de gosto possibilita a complacência. Porém é preciso fazer distinção entre a complacência ligada a interesse, que está ligada à representação da existência de um objeto e a complacência do juízo de gosto, que é independente de todo interesse, portanto desinteressada.
            
Existem três relações das representações ao sentimento de prazer ou desprazer, que são os três modos de complacência: complacência no agradável, complacência no bom e complacência no belo. Enquanto as duas primeiras estão relacionadas à faculdade da apetição (vontade), esta última é meramente contemplativa.
            
Para Kant, a complacência no agradável está relacionada a interesse. Isso fica claro quando entendemos que o agradável está associado a tudo aquilo com o qual nos deleitamos, ou seja, aquilo que agrada aos sentidos. A complacência faz parte da relação que há entre o objeto e o nosso sentimento de prazer ou desprazer diante do objeto.

Toda complacência é sensação (de um prazer). Entretanto, é preciso entender a diferença entre sensação do sujeito e sensação do objeto. Uma cor de um determinado objeto pertence à sensação objetiva (qualidade física), enquanto o prazer ou desprazer que aquela cor me proporciona pertence à sensação subjetiva.

Entendemos, então, que a complacência no agradável é ligada a interesse porque o meu juízo sobre um objeto, quando o declaro agradável, não expressa o simples juízo sobre ele, mas expressa um interesse pelo mesmo, à referência da sua existência a meu estado. A complacência no agradável é patologicamente condicionada por estímulos, é aquilo que deleita. Por isso o agradável está associado àquilo com o qual nos deleitamos, o agradável não somente apraz, ele deleita.

Por sua vez, a complacência no bom também está ligada a interesse. E preciso entender que bom é o que apraz pelo simples conceito. Existe, portanto, o bom para (aquilo que é útil), é algo que apraz tão somente como meio, um fim externo ao sujeito; e existe o bom em si que é a ação desinteressada, pelo próprio sujeito.

Para Kant, a complacência no bom depende da reflexão no objeto, é o interesse mediante conceitos, distinguindo-se do agradável que está ligado à sensação. A complacência no bom é prática, a qual é determinada pela conexão entre o sujeito e o objeto. É aquilo que é estimado ou aprovado. Embora, muitas vezes, o agradável pareça ser idêntico ao bom, o bom tem sua complacência na existência do objeto.
        
Tanto o agradável quanto o bom, apesar da diversidade, estão ligados com interesse ao objeto. Pois querer alguma coisa e ter complacência na sua existência, ambos são idênticos.
            
A complacência no belo distingue-se da complacência no agradável e no bom, pois apresenta-se como independente de todo interesse. Se uma coisa é bela, não importa algo sobre a existência dessa coisa e sim como a ajuizamos na contemplação. Sendo assim, o belo não é uma propriedade objetiva das coisas. Por isso a complacência no belo não está ligada a qualquer interesse, dos sentidos, de utilidade.
            
Para Kant, a complacência no agradável e a complacência no bom, ambas estão ligadas ao interesse. O mesmo não se diz da complacência no belo que é meramente aquilo que apraz, sendo uma complacência desinteressada e livre, porque não está ligada ao objeto.
            
Porém, para Kant, o belo é o que é representado sem conceitos como objeto de uma complacência universal. Como entender isto, uma vez que só há universalidade mediante conceitos? Para ele, porém, trata-se da possibilidade de uma universalidade subjetiva.
            
Para Kant, a complacência independe de todo e qualquer interesse, logo se conclui que é válida para qualquer um, pois não se funda em nenhuma inclinação, não há uma condição privada, significando que todos, então, podem ter uma complacência desinteressada. Essa ausência de motivação privada na complacência é válida para qualquer um.
            
Ainda mais, quando se profere juízo, profere-se como se a beleza fosse uma finalidade do objeto (não o resultado do sentimento de prazer no objeto – subjetivo). Essa reivindicação de validade universal acontece recorrendo-se à voz universal. É uma universalidade subjetiva, pois no juízo de gosto não se destina o conhecimento à comunidade lógica, mas à comunidade dos que julgam, da voz universal. Quando se diz “a cadeira é bela” não se pretende conceituar a cadeira, mas aplica-se um juízo de gosto que se destina ao conhecimento geral, isto é, a esfera inteira dos que julgam.
            
Segundo Kant, quando objetos são julgados segundo conceitos, perde-se toda a representação da beleza. Se, por outro lado, chamamos o objeto de belo, cremos que vem em nosso favor uma voz universal que reivindica a adesão de qualquer um. Pois a voz universal é somente uma idéia, não repousa em conceitos. Por isso se pretende o assentimento de qualquer. Porém, é preciso entender que no juízo de gosto o sujeito espera a adesão de outros, mas não imputa esta adesão. A universalidade objetiva impõe a subjetiva, em contrapartida, a universalidade subjetiva não deduz a objetiva.
            
Resolvida a questão do belo como objeto de uma complacência universal, sem conceitos, Kant trata em seguida do fundamento do prazer. Para ele, esse juízo de gosto, puramente subjetivo, do objeto, precede o prazer pelo objeto, sendo o jogo livre e a harmonia entre a fantasia e o intelecto que o objeto produz no sujeito. Para ele o “estado de um jogo livre das faculdades de conhecimento em uma representação, pela qual um objeto é dado, tem que comunicar-se universalmente”. O que se trata de comunicar no juízo de gosto é o estado de ânimo do sujeito. Não há coerção das leis da natureza. Sendo então, o juízo de gosto, privado, porém com pretensões de ser publico, por meio da voz universal.

 Até este ponto estudado, são compreensíveis, portanto, as conclusões de Kant: O juízo estético, ou juízo de gosto, trata sobre o belo como propriedade que nasce da relação dos objetos com o nosso sentimento de prazer ou desprazer e que atribuímos aos próprios objetos. Nesse juízo de gosto temos a possibilidade da complacência, que deve ser distinta em suas representações, no agradável, no bom e no belo. Enquanto as duas primeiras complacências ligam-se a interesses, esta última é totalmente contemplativa e desinteressada, por isso mesmo, reivindica sua universalidade, porque vale para todos os homens, não apelando para conceitos, não apelando para a lógica, mas para a comunidade dos que julgam, à voz universal. A complacência no belo pode ser entendida como universal porque está desvinculada de conceitos, de qualquer conhecimento lógico, pois aponta para a subjetividade, sendo portanto uma complacência universal subjetiva. Quando recorre à voz universal da esfera dos que julgam, a complacência no belo pretende-se universal, esperando a adesão, sem impor. É conclusivo também que tal complacência (no belo), como ocorre sem pressupor um conceito determinado, é o estado de ânimo do sujeito no jogo livre da faculdade da imaginação e do entendimento, buscando o assentimento universal.

 BIBLIOGRAFIA

 KANT, Immanuel, Crítica da Faculdade do Juízo. Trad. Valeno Rhoden e Antonio Marques. 2008. 2 Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária. P. 47-63.