O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

14 de junho de 2014

A importância da filosofia no contexto cristão

A IMPORTÂNCIA DA FILOSOFIA NO CONTEXTO CRISTÃO

Pr. Gilson Soares dos Santos

     Qual a importância da filosofia para um cristão? Recorreremos, no primeiro momento ao que escreve Geisler e Feinberg (1989, p. 60):

“A filosofia apresenta um desafio específico para o cristão, de modo tanto positivo quanto negativo. A filosofia é útil na construção do sistema cristão e na refutação de pontos de vista contrários. Há um texto crucial no Novo Testamento que corresponde a estas duas tarefas. Paulo disse: ‘Anulamos sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus [aspecto negativo], levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo [aspecto positivo]’ (II Co 10.5). Sem um conhecimento eficiente da filosofia, o cristão está à mercê do não cristão na arena intelectual. O desafio do cristão é ‘superar no pensamento’ o não cristão tanto na edificação da igreja quanto em derrubar sistemas de erro.
Se esta é a tarefa do cristão na filosofia, como, pois se explica a advertência do apóstolo Paulo no sentido de ‘cuidar que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia’ (Cl 2.8)? Infelizmente, alguns cristãos têm entendido este versículo como sendo uma injunção contra o  estudo da filosofia. Esta ideia é incorreta por várias razões. Primeiramente, o versículo não é uma proibição contra a filosofia propriamente dita, mas, sim, contra a falsa filosofia, pois Paulo acrescenta: ‘e [cuidado com] as vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens’. Na realidade, Paulo está advertindo contra uma filosofia falsa específica, um tipo de gnosticismo incipiente que tinha se infiltrado na igreja em Colossos (o grego tem um artigo definido que indica uma filosofia específica). Finalmente, não podemos realmente, ‘acautelar-nos’ da falsa filosofia a não ser que primeiramente tenhamos consciência dela. Um cristão deve reconhecer o erro antes de ir contra ele, assim como um médico deve estudar a doença antes de poder tratá-la com o devido conhecimento.”

1 – A base bíblica para a filosofia cristã

     Continuemos com Geisler e Feinberg (Idem, p.61):

“Deus não dá prêmio à ignorância. Os cristãos não recebem uma recompensa espiritual por uma fé ignorante. A fé pode ser mais meritória do que a razão (‘sem fé é impossível agradar a Deus’ Hb 11.6), mas a razão é mais nobre (‘Estes eram mais nobres que os de Tessalônica; pois... examinaram as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram de fato assim’ At 17.11). Na realidade, o ‘grande mandamento’ ao cristão é: ‘Amarás o Senhor teu Deus... de todo o teu entendimento” (Mt 22.37). Pedro diz que devemos sempre estar preparados “para responder a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (I Pe 3.15). Paulo diz que estamos ocupados ‘na defesa e confirmação do evangelho’ (Fp 1.7), e ele mesmo ‘arrazoou... acerca das Escrituras’ (At 17.2)
É verdade que somos advertidos contra a ‘sabedoria do mundo’ (I Co1.20). Mas esta, também, faz parte do desafio da filosofia para o cristão.”

2 – Os papéis da filosofia para um cristão

     Moreland e Craig (2012, p. 31) apresentam sete razões da importância da filosofia para o desenvolvimento de uma vida religiosa consistente:

“Primeira, a filosofia auxilia a tarefa da apologética, cujo objetivo é estabelecer uma defesa plausível do teísmo cristão em face das objeções que lhe são apresentadas, oferecendo evidências positivas a seu favor. As Escrituras ordenam que nos ocupemos da apologética (I Pe 3.15; Jd 1.3). Os profetas do Antigo Testamento frequentemente recorreram a vastos argumentos sobre a natureza do mundo para justificar a religião de Israel. Por exemplo, eles ridicularizaram os ídolos pagãos por sua fragilidade e insignificância. O mundo é muito grande, afirmavam, para haver sido feito por algo tão pequeno (v Is 44 e 45). Argumentos como esses admitem uma posição filosófica sobre a natureza da causalidade; por exemplo, que um efeito (o mundo) não pode advir de algo menos poderoso do que ele próprio (o ídolo). Da mesma forma, os profetas frequentemente recorriam aos princípios gerais do raciocínio moral para criticar a imoralidade das nações pagãs (p. ex., Am 1 e 2). Argumentos como esse utilizam a lei moral natural e os princípios filosóficos gerais do raciocínio moral.”

“Segunda, a filosofia auxilia a igreja na atividade polemista (contestação). Enquanto a apologética envolve a defesa do teísmo cristão, a contestação tem por tarefa criticar e refutar as visões alternativas de mundo.”

“Terceira, a filosofia é uma manifestação central da imagem de Deus em nós. É muito difícil propor uma definição incontestável da imagem de Deus, mas a maioria dos teólogos concorda que ela inclui a habilidade em se ocupar do raciocínio abstrato, especialmente nas áreas relacionadas às questões éticas, religiosas e filosóficas. O próprio Deus é um ser racional, e os humanos são como ele nesse sentido. Essa é uma das razões pela qual os homens são ordenados a amar a Deus de todo o seu entendimento (Mt 22.37). Uma vez que a filosofia, assim como a religião, é uma disciplina que enfoca principalmente as questões fundamentais acerca do âmago da existência, então a reflexão filosófica a respeito de Deus, de sua revelação especial e geral faria parte do nosso modo de amá-lo e de refletir em seus pensamentos.”

“Quarta, a filosofia permeia a teologia sistemática e atua como sua serva, ajudando de várias maneiras a clarificar seus conceitos. Por exemplo, os filósofos cooperam na explicação dos diferentes atributos de Deus, ao demonstrar que as doutrinas da Trindade e da encarnação não são contraditórios; ao esclarecer, também, a natureza da liberdade humana e assim por diante.”

“Quinta, a filosofia pode facilitar a disciplina espiritual do estudo. O estudo em si mesmo é uma disciplina espiritual, e o simples ato de estudar pode mudar o eu.”

“Sexta, a disciplina da filosofia pode elevar a ousadia e a autoimagem da comunidade cristã em geral. [...] Gager afirma que foi principalmente a presença dos filósofos e apologistas dentro da igreja que elevou a autoconfiança da comunidade cristã, pois esses primeiros estudiosos mostraram que a comunidade cristã era tão intelectual e culturalmente rica quanto a cultura pagã que a circundava.”

“Sétima, a disciplina da filosofia é absolutamente essencial para a tarefa da integração. Integrar significa misturar ou formar um todo. Nesse sentido, a integração ocorre quando as convicções teológicas do indivíduo, principalmente as baseadas nas Escrituras, estão misturadas e unidas a proposições julgadas racionais por outras fontes, dentro de uma cosmovisão cristã coerente e intelectualmente adequada.”


     Concluímos lembrando que a própria história da igreja cristã revela que a filosofia sempre exerceu papel de grande importância na educação dos crentes para a proclamação da cosmovisão cristã.

BIBLIOGRAFIA

GEISLER, Norman L. FEINBERG, Paul D. Introdução à Filosofia: Uma Perspectiva Cristã. São Paulo: Vida Nova. 1989.

MORELAND, J. P. CRAIG, William Lane. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova. 2012.