O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

7 de janeiro de 2013

O sacrifício de Isaque e a angústia de Abraão, em Kierkegaard


O SACRIFÍCIO DE ISAQUE E A ANGÚSTIA DE ABRAÃO, EM KIERKEGAARD

Gilson Soares dos Santos

Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês, abordou com propriedade o tema da angústia, que toma lugar central em sua filosofia, sendo que, na maioria das vezes, recorreu a explicação teológica. Nele há uma explicação de que a angústia toma conta do homem quando este descobre que é livre para pecar. Ao lado da angústia, segundo Kierkegaard, o homem também possui a fé. É a fé que fará com que a angústia que há no homem perca seu aspecto aterrorizante. Em sua obra temor e tremor o filósofo analisa o dilema de Abraão quando Deus pede seu filho Isaque em holocausto. É sobre essa angústia em Kierkegaard que queremos tratar, levantando a questão entre fé e angústia: se Abraão tinha fé, é possível que ele tenha tido angústia?

Para testar a fé de Abraão, Deus pede Isaque em sacrifício. Abraão deve matar o próprio filho para dar provas de sua fidelidade à Deus. Deus pede, em sacrifício, aquilo que Abraão mais ama, o seu filho. Do ponto de vista ético, o sacrifício de Isaque seria uma atitude absurda. Porém Kierkegaard mostra que há três estágios ou estádios pelos quais o homem passa: o estético, o ético e o religioso. Abraão não levaria em consideração a ética porque estava no estádio religioso, que é superior ao ético. Nesse caso, estando no estágio religioso, não poderia ser julgado como assassino.

Kierkegaard amplifica o dilema de Abraão quando mostra que o patriarca estava sozinho nessa empreitada. Deus pede Isaque em holocausto e Abraão teria que fazer isto sozinho. O sacrifício de Isaque, aparentemente, não é um ato heroico, pois não salvaria ninguém. É uma oferta solitária, apenas entre Abraão e o Absoluto. Kierkegaard contrastará com a tragédia grega Ifgênia em Aulide, que conta a história de Agamenon sacrificando a filha em nome do bem de todos. Agamenon se torna um herói (herói trágico), por ter sacrificado a filha pelos outros, mas é reconhecido, pois não está sozinho, está amparado pelo reconhecimento dos outros. No caso de Abraão, quem o reconheceria? o Absoluto? Ninguém, exceto Deus, compreenderia o sacrifício de Abraão, portanto, nessa missão, ele continua só.

A angústia de Abraão consiste no dilema: perder o filho ou perder Deus? Se sacrificasse Isaque, Abraão o perderia; se Abraão recusasse sacrificar o filho, perderia o contato com Deus, pois sua fé estaria reprovada.  Eis a angústia do patriarca. Acrescente-se a isto a dúvida quanto a questão ética.

Em O conceito de angústia, Kierkegaard é mais preciso no trato sobre a angústia. Para ele, a angústia é consequência da consciência do homem de que é livre para pecar. A angústia também pode ser encontrada na inocência e no nada da incerteza. Há na angústia uma falta de determinação e isso traz a sensação de vazio. Segundo o filósofo, Adão, lá no Éden, sentiu angústia quando soube que era livre para pecar, pois é no momento que Deus dá a proibição que o homem sente a angústia. Quando Deus proíbe Adão de comer do fruto, gera nele uma situação incômoda, segundo Kierkegaard.

No caso de Abraão, ter a escolha de obedecer a Deus, resultando na perda do filho ou recusar-se obedecer a Deus, resultando na perda da ligação com o Absoluto, gera em seu ser a Angústia, que somente será superada pela fé. A angústia perderá sua característica aterrorizante quando o homem atinge o nível da fé. A fé fez que Abraão superasse o finito para atingir o infinito. Para Kierkegaard se a fé é formada em nós, a angústia destruirá aquilo que ela própria produz. A angústia, nesse caso, segundo Kierkegaard, transforma-se numa serva invisível que, mesmo sem querer, conduz o homem aonde deseja ir. A angústia tornou-se uma amiga para Abraão, pois ele tinha fé, e a angústia tornou-se em algo edificante. A angústia de Abraão foi uma angústia amigável, tudo porque ele possuía fé.

A angústia é inevitável em qualquer pessoa que esteja em um dilema, mas esta se transforma numa ferramenta amigável quando o individuo possui fé. A angústia é boa ou ruim? Isso dependerá da fé do indivíduo.