O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

2 de fevereiro de 2013

A regressão do esclarecimento ao mito, em Theodor Adorno



A REGRESSÃO DO ESCLARECIMENTO AO MITO, EM THEODOR ADORNO

Gilson Soares dos Santos 

Theodor Adorno (junto com Horkheimer) tem como propósito primordial “descobrir porque a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie”. Tem como objeto investigar a autodestruição do esclarecimento. Esclarecimento este, que pretendeu desencantar o mundo e destruir o animismo, varrendo (ou purificando) qualquer vestígio de mito ou de animia. Ele (Adorno) investiga porque o esclarecimento que pretendeu racionalizar o mundo, tirando qualquer vestígio de mito, para depois torná-lo subjugável e manipulável por parte do homem, regride ao mito.
             
É de se esperar que tamanha empreitada, investigar a causa da recaída do esclarecimento na mitologia, seja de todo proveitosa, principalmente porque Adorno, em sua parte crítica, limita-se a duas teses: O mito já é esclarecimento; e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia.

A primeira expressão de Adorno sobre o conceito de esclarecimento é que “este busca o desencantamento do mundo”, objetivando livrar os homens do medo, tornando-os senhores da natureza interna e externa. O programa do esclarecimento era dissolver os mitos, substituir a imaginação pelo saber. Porém, o mito já é esclarecimento. E essa é a primeira tese de Adorno. A relação mito-esclarecimento é íntima. O mito que pretendeu relatar, dominar, dizer a origem, explicar é produto do próprio esclarecimento, e este, por sua vez, acaba por se reconhecer no próprio mito.  Há uma conversão de mito em esclarecimento, porque no mito há elementos de esclarecimento. Tudo porque o esclarecimento age em relação às coisas da mesma forma que o ditador age em relação aos homens: conhece-os na medida em que pode manipulá-los. A natureza é encarada como mera objetividade. Mito como esclarecimento e esclarecimento como mito pode ser entendido na sentença de Adorno e Horkheimer: “Do mesmo modo que os mitos já levam a cabo o esclarecimento, assim também o esclarecimento fica cada vez mais enredado, a cada passo que dá, na mitologia.”
             
O esclarecimento, segundo Adorno, que tinha como objetivo a desmitologização, fez uso de suas armas para a autodestruição. Isso ocorreu porque o esclarecimento que combatia o medo ficou “paralisado pelo medo da verdade”. Para o esclarecimento nada deve ficar de fora, e essa preocupação com a autoconservação, essa preocupação de que algo fique de fora gera a angústia, gera o medo. O esclarecimento que queria eliminar os mitos terminou por criá-los sem medida. O homem que agora domina a natureza aliena-se dela, e isso não é outra coisa senão mito. O conteúdo que o esclarecimento herdou dos mitos e tentou destruir fez que o próprio esclarecimento fosse enredado pelo mito. Por mais que o esclarecimento tenha tentado se desvencilhar do mito, por julgá-lo superstição, não conseguiu. No mito, tudo o que acontece expia uma pena pelo fato de ter acontecido, no esclarecimento, o fato torna-se nulo, mal acabou de acontecer. O esclarecimento que lutou pela desmitologização visando o progresso irrefreável, agora se vê irrefreavelmente indo ao regresso, sendo enredado, a cada passo que dá, na mitologia. A culpa, obviamente, não está nas mitologias nacionalistas, mitologias pagãs ou modernas, mas no próprio esclarecimento. A trajetória do esclarecimento, que separa o objeto do sujeito com o objetivo de dominá-lo, extingue o próprio sujeito.
           
O que Adorno (junto com Horkheimer) pretendeu, isto é, investigar a regressão do esclarecimento ao mito, compreendendo porque a humanidade na busca de progredir está regredindo, alcançou seu objetivo. O esclarecimento que supostamente nos levaria para uma sociedade mais justa e livre, pois “a liberdade da sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor”, passando por uma desmitologização, fazendo uma varredura (purificação) dos mitos e animias, acabou por tomar um caminho irrefreável de regressão ao mito, dirigindo a sociedade em direção à uma nova espécie de barbárie. As instituições da sociedade, com as quais o esclarecimento está enleado, contém o germe que leva à regressão. E à medida que o esclarecimento rejeita a reflexão sobre este elemento regressivo, sobre este seu papel (ou momento) de mito, consequentemente sela sua regressão ao mito. “O progresso converte-se em regressão”.

BIBLIOGRAFIA

ADORNO. Theodor W., HORKHEIMER, Max; Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Pag. 11-27. Tradução: Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.