O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

21 de setembro de 2016

Por que falar de política para a igreja

I – POR QUE FALAR DE POLÍTICA PARA A IGREJA?
Romanos 13.1-7

Pr. Gilson Soares dos Santos

1 Todo homem esteja sujeito as autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. 2 De modo que aquele que se opõe a autoridade resiste a ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. 3 Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, 4 visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. 5 É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. 6 Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. 7 Pagai a todos o que lhes e devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.[1]

          Talvez alguém ache estranho o fato de tratarmos sobre política na igreja. É normal que muitos reajam dessa maneira até que tenham um entendimento melhor sobre o assunto. É exatamente sobre isso que trataremos agora.

         Falaremos de política na igreja, pelas seguintes razões:

1.1_ A Bíblia fala de questões políticas

          Nas Sagradas Escrituras não encontramos a palavra “política”, pois esse é um termo que nasceu entre os gregos. Todavia, podemos encontrar assuntos que, certamente, estão relacionados ao que conhecemos hoje como “política”. Vejamos quando a Bíblia fala de assuntos políticos:

          a)_ Quando combate as injustiças sociais

          No texto de Amós 2.6,7a, encontramos o Senhor apresentando sua demanda contra as autoridades. Leiamos o texto:

6 Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Israel e por quatro, não sustarei o castigo, porque os juízes vendem o justo por dinheiro e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias. 7 Suspiram pelo pó da terra sobre a cabeça dos pobres e pervertem o caminho dos mansos; um homem e seu pai coabitam com a mesma jovem e, assim, profanam o meu santo nome.[2].

          Comentando sobre isto D. A. Carson escreve:

Amós examina os pecados de Israel de uma perspectiva tanto social (6,7) quanto religiosa (7,8). Sua corrupção em relação aos justos, sua insensibilidade em relação aos mais pobres e sua voracidade em relação aos oprimidos são os fatos primeiramente descritos. 6 O justo, ou seja, alguém inocente perante a lei. Os juízes estavam abertos à corrupção (por dinheiro), veredictos eram vendidos por algo tão insignificante quanto um par de sandálias ou os casos trazidos à justiça eram tratados como se fossem questão tão insignificantes quanto um par de sandálias – tal era a cobiça nessa época.[3]

          No texto bíblico de Amós 8.4-6 é possível encontrarmos uma repetição da demanda de Deus contra Israel concernente às questões sociais, vejamos o texto:

4 Ouvi isto, vós que tendes gana contra o necessitado e destruís os miseráveis da terra, 5 dizendo: Quando passará a Festa da Lua Nova, para vendermos os cereais? E o sábado, para abrirmos os celeiros de trigo, diminuindo o efa, e aumentando o siclo, e procedendo dolosamente com balanças enganadoras, 6 para comprarmos os pobres por dinheiro e os necessitados por um par de sandálias e vendermos o refugo do trigo?[4]

          Sobre isto Champlin escreve:

Além de barganhar com toda a espécie de produtos, eles negociavam com seres humanos, no comércio escravocrata, tanto local quanto internacional. Os seres humanos, nesse comércio, custavam bem pouco: um par de sandálias podia comprar um escravo e até um pouco de trigo relativamente inútil, como aquele varrido do chão (NCV). O sofrimento e os sentimentos humanos nada significavam para aquelas feras humanas.[5].

          b)_ Quando fala do poder das autoridades civis

          O texto que usamos para encabeçar este capítulo, isto é, Romanos 13.1-7 nos mostra, claramente, uma questão política: a autoridade do governo civil
          Comentando sobre isto, Wayne Grudem, em seu livro “Política Segundo a Bíblia”, defende que o texto está tratando de questões políticas:

As autoridades que exercem poder governamental foram ordenadas por Deus (v1,2). [...] O governo tem o papel de promover o bem geral da sociedade. Deve não apenas castigar a má conduta , mas também incentivar e recompensar a boa conduta, que contribui para o bem da sociedade. [...] Os funcionários do governo servem a Deus. Paulo diz que os governantes são servos de Deus “para o teu bem” (v4, cf. v6). [...] Essa passagem é forte corroboração para a ideia de que devemos ver o governo civil como uma dádiva de Deus. [6].

          De igual maneira, encontramos em I Pedro 2.13,14 uma exortação sobre a submissão às autoridades civis. Vejamos o texto:

13 Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, 14 quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem.[7]

          Comentando esse texto, D. A. Carson diz:

O bom comportamento deve ser expresso pela aceitação submissa das exigências de toda instituição humana. É admirável que Pedro, provavelmente escrevendo na época de Nero, ainda veja o Estado como designado por Deus para a manutenção dos valores morais.[8]

          c)_ Quando fala para orarmos pelas autoridades

          Quando abrimos nossas Bíblias em I Timóteo 2.1,2 encontramos um mandamento para que oremos pelos reis e por todas as demais autoridades. Isso quer dizer que precisamos orar pelos políticos, ou seja, por aqueles que exercem autoridade política. Vejamos o texto:

1 Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, 2 em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.[9].

          Carson faz o seguinte comentário sobre esse texto:

Paulo não somente está desejoso de incluir a todos, mas chama atenção especial aos que exercem autoridade. (2) O que é significativo é que Paulo não faz distinção entre os governantes justos e os que não o são. Ele considera que o cristão tem a responsabilidade de orar por aqueles cujos atos influenciam todos os cidadãos. Mas o propósito da oração é que os cristãos vivam vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.[10].

          Poderíamos encontrar diversos outros textos nos quais a Bíblia trata sobre questões que, de alguma maneira, estão relacionadas à política. Mas os três pontos acima são suficientes para alicerçarmos, biblicamente, que a igreja precisa estar a par de assuntos políticos.

1.2_ Os reformadores trataram sobre questões políticas

          Nós, os congregacionais, temos raízes teológicas nas Sagradas Escrituras, isto é inegável. Porém, nossas raízes históricas estão na Reforma Protestante do Século 16. Sendo assim, é muito importante que observemos o que os Reformadores pregaram. No tocante às questões políticas, eles não foram omissos, também ensinaram ao povo.

          Franklin Ferreira, apresentando o Livro “Política Segundo a Bíblia”, da autoria de Wayne Grudem, expõe uma lista de Reformadores que escreveram sobre assuntos políticos. Vejamos:

          a)_ Martinho Lutero

          “Foi o primeiro dos reformadores a tratar do assunto, em sua obra Da autoridade secular, até que ponto se lhe deve obediência (1523)”[11].

          Podemos compreender, então, que Lutero não somente confrontou as questões religiosas do seu tempo, enfrentando o poder da Igreja Católica Apostólica Romana, mas também tratou de questões políticas, orientando o povo de Deus sobre até que ponto os crentes deveriam submissão às autoridades civis.

          b)_ João Calvino

          “Abordou a matéria nas Institutas da Religião Cristã (1559), ao tratar ‘da administração política’ (IV. XX)
          O Reformador João Calvino, em seu Livro IV das “Institutas da Religião Cristã”, deixa bem claro que, embora seu propósito maior seja escrever sobre a Doutrina Espiritual da Fé, é impelido pela necessidade a escrever sobre a justiça civil e a justiça exterior dos homens. Calvino foi outro dos Reformadores que buscou ensinar o povo de Deus sobre questões políticas.

          c)_ Martin Bucer

          No ano de 1551, outro Reformador Protestante chamado Martin Bucer, escreveu uma tratando que apresenta uma teologia do Estado, a saber, De Regno Christi (O Reino de Cristo).

          d)_ John Ponet

          John Ponet foi um protestante inglês, ele também escreveu um tratado sobre política: A Short Treatise of Political Power (Um breve tratado do poder político), no ano de 1556.

          e)_ Christopher Goodman

          Goodman escreveu a seguinte obra sobre política: How Superior Powers Ought to Be Obeyed of Their Subjects; and Wherein They May Lawfully by God´s Word Be Disobeyed and Resisted [Como poderes superiores devem ser obedecidos por seus súditos; e em que ponto ele spodem legitimamente, segundo a Palavra de Deus, ser obedecidos e resistidos] (1558).

          f)_ Francois Hotman

          François Hotman, por sua vez, ainda segundo Franklin Ferreira, escreveu: Franco-Gallia, Or, Na Account of the Ancient Free State of France, and Most Other Parts of Europe, Before the Loss of their Liberties [Francogália ou Um relato do antigo Estado livre da França e a maioria das outras partes da Europa, antes da perda da liberdade] (1573).

          g)_ Theodoro de Beza

          O sucessor de Calvino, Teodoro de Beza, escreveu: De Jure Magisterium [Do direito dos magistrados] (1574).

          Outros nomes de Reformadores são citados por Franklin Ferreira na apresentação da obra acima mencionada. Porém, esses já são suficientes para acreditarmos que os Reformadores não foram omissos na orientação à igreja, no tocante às questões políticas.

1.3_ Outros teólogos e escritores cristãos escreveram sobre política

          Além dos Reformadores, muitos outros teólogos e líderes cristãos trataram sobre o tema “política” em seus escritos. Ainda recorrendo a apresentação de Franklin Ferreira, no Livro “Política Segundo a Bíblia”, cujo autor é Wayne Grudem, podemos ter uma lista de homens de Deus que consideraram que a igreja precisa saber sobre questões políticas. Vejamos:

          a)_ Samuel Rutheford e Johannes Althusius

          “No período pós-reforma foram escritas duas obras influentes: Lex Rex [A lei é o rei] (1644), de Samuel Rutheford, e Política (1603), de Johannes Althusius, que tem ‘a distinção de ser uma das contribuições centrais para o pensamento político ocidental’”.[12]

          b)_ Outros nomes

          Muitos outros nomes de homens de Deus podem ser apresentados como orientadores dos crentes sobre política: Abraham Kuyper, Karl Barth, Emil Brunner, Reinhold Nieburh, etc.

1.4_ A política que não deve ter espaço na igreja

          Porém, é preciso que os pastores tenham muito quando no ensino sobre política na igreja. Eis alguns cuidados:

          a)_ Evitar campanha político-partidária

          O Código de Ética do Ministro Congregacional, no item que trata sobre “O Ministro e a Política”, traz a seguinte orientação: “1- O Ministro deve evitar se envolver ativamente em campanha político-partidária. 2 – O Ministro não deve manifestar no púlpito de sua Igreja suas preferências eleitorais.”[13].
          É certo que o pastor vota. Também é certo que, na maioria das vezes, o pastor já tem seu candidato escolhido, porém, não é certo que ele se envolva ativamente em campanha a favor de candidato A, B ou C. Em hipótese alguma deve usar o púlpito com essa finalidade.

          b)_ Não ceder o púlpito para campanha política

          Outro tipo de política não cabível na igreja é aquela que cede o púlpito para que candidatos possam fazer qualquer tipo de saudação, mesmo que seja candidatos evangélicos.
          O Código de Ética do Ministro Congregacional, no mesmo item que trata sobre “O Ministro e a Política”, alerta a respeito disso: “O Ministro não deve ceder o púlpito de sua igreja para a realização de campanha política”.[14].

          c)_ Não ceder o púlpito para líderes de movimentos populares

          Procurando esquivar-se de tratar diretamente de temas políticos na igreja, alguns pastores podem ser tentados a levar para os púlpitos de suas igrejas líderes de movimentos populares, julgando com isso prestar um favor à igreja no que concerne a assuntos políticos. Porém, essa não é a maneira correta de orientar a igreja sobre política. O pastor deve se inteirar sobre as questões sociais e, ele mesmo, tratá-las, à luz das Sagradas Escrituras, no púlpito da Igreja.

          Diante do que expusemos aqui neste capítulo, fica claro que é preciso sim falar sobre política na igreja. O propósito é orientar o povo de Deus sobre a importância da política séria. O que não podemos é fazer política tendenciosa no ambiente cristão, tampouco elevar os debates políticos em detrimento da pregação do Evangelho puro e simples. Também é preciso saber que os pastores não devem ceder os púlpitos das igrejas para que políticos façam suas campanhas, mesmo que a plataforma destes políticos seja interessante.




[1]  SBB. Bíblia Sagrada.  Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. Rm 13.1-7.
[2]  Ibidem. Am 2.6,7
[3]  CARSON, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova. 2009. p. 1199.
[4]  SBB. Bíblia Sagrada.  Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. Amós 8.4-7.
[5]  CHAMPLIN, Russel N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5.  São Paulo: Hagnos. 2001.  p. 3528.
[6]  GRUDEM, Wayne. Política segundo a Bíblia: princípios que todo cristão deve conhecer. São Paulo: Vida Nova. 2014. PP. 112-113.
[7]  SBB. Bíblia Sagrada.  Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. I Pe 2.13,14
[8]  CARSON, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova. 2009. p. 2063.
[9]  SBB. Bíblia Sagrada.  Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. I Tm 2.1,2.
[10]  CARSON, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova. 2009. p. 1947.
[11]  GRUDEM, Wayne. Política segundo a Bíblia: princípios que todo cristão deve conhecer. São Paulo: Vida Nova. 2014. p.9.
[12]  Ibidem. p.10..
[13]  ALIANÇA CONGREGACIONAL. Documentos Oficiais: Constituição, Regimento Interno, Código de Ética, 28 Artigos.  João Pessoa: Aliança Editora. 2012. P.96.
[14]  Ibidem. P.97.