O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

26 de maio de 2012

Conceito de Liberdade em Agostinho e Sartre



Rev. Gilson Soares dos Santos


1 - Compreensão da liberdade em Agostinho

Agostinho, desde o começo, seguiu os ensinamentos dos chamados "pais da igreja" que vieram antes dele. Ao escrever contra o maniqueísmo, Agostinho defendia que o ser humano, mesmo caído, possuía o poder da livre escolha. Com o passar do tempo, ele partiu para uma visão moderada sobre o livre-arbítrio, chegando, posteriormente, a assumir uma posição radical de predestinação. Porém, o que destacamos aqui é a compreensão da liberdade em Agostinho na obra o livre arbítrio.

Agostinho defende, em o livre arbítrio, que Deus é o criador de todo o bem. Não há nenhuma possibilidade do Criador haver criado o mal. De igual maneira ele defende que o mal é uma escolha do homem. Porém o ser humano escolhe o mal porque Deus lhe deu o livre-arbítrio e, por meio dessa livre escolha, o homem optou por fazer o mal. Isso suscita uma questão: se Deus criou o livre arbítrio e este mesmo leva o homem a pecar escolhendo o mal, não seria Deus o autor de um mal chamado livre arbítrio? A resposta em Agostinho é simples: Deus criou o livre-arbítrio, porém este não é um mal, mas um bem que procede de Deus. O homem é quem faz dele (do livre arbítrio) um meio para se chegar ao mal.
Mais uma questão é levantada: se o homem tem o poder de decidir fazer o bem ou o mal por meio do livre arbítrio que lhe é concedido, então o livre arbítrio pode ser entendido como liberdade? Não. De forma alguma. O livre arbítrio seria um elemento neutro entre a liberdade e a escravidão. Por meio desse elemento neutro o homem pode, voluntariamente, escolher o bem ou o mal. Se ele escolher o bem, certamente encontrará a liberdade. Se sua escolha for o mal, nunca poderá ter liberdade. Para Agostinho, em o livre arbítrio, todo mal é resistível.
Posteriormente, Agostinho vai defender que após escolher o mal o homem não tem mais o poder de livre escolha, muito menos de liberdade. É como alguém que para matar a si mesmo precisa estar vivo quando se mata, mas após ter se matado cessa de viver, não podendo mais restaurar a vida a si mesmo.
Em suma, o livre arbítrio não é um mal, mas um elemento neutro que o homem pode usar para chegar ao mal. Não é a liberdade, porém um elemento neutro que o homem pode usar para se chegar à liberdade, conhecendo a Deus e aceitando sua graça.
  
2 - Compreensão da liberdade em Sartre

            O pensamento existencialista de Sartre está intimamente ligado ao conceito de liberdade. A liberdade estaria ligada ao poder de escolha incondicional que o homem faz do seu ser e de seu mundo. É como se estivéssemos condenados à liberdade.

            "A existência precede a essência". Vontade precede a liberdade. Sartre parte da existência para chegar a alguma coisa. A liberdade é um poder absolutamente incondicional e está ligado à vontade, sejam quais forem as circunstâncias.
            Para Sartre, a liberdade está na vontade, essa vontade que faz com que o homem invente o próprio homem. O homem é o que projeta ser. Sendo assim, é possível defender, e Sartre assim o faz, que a liberdade está na vontade e é parte constituinte da consciência. Pensando dessa forma, haveria algum limite para o homem? Sim, pois a liberdade é situada. Mas é importante salientar que os limites dessa situação apresentam-se como ocasiões propícias à liberdade.
            Quando nos deparamos diante de situações as quais julgamos externas, mesmo esse pensamento é uma decisão livre, ou seja, decidimos encarar as coisas desta forma, a liberdade seria a conduta que abraçamos. Somos agentes livres para alguma coisa. A liberdade é sempre liberdade para alguma coisa, e "essa coisa" está na nossa decisão, e "essa decisão" é a liberdade que nos faz a nós e ao nosso mundo serem como são.
            Embora defendendo que a minha liberdade não depende da liberdade do outro, Sartre mostra que se há um compromisso entre a minha liberdade e a liberdade do outro. Não podemos tomar a nossa liberdade como fim se não considerarmos também como fim a liberdade dos outros.

            Portanto, a liberdade em Sartre deve ser entendida como um compromisso, ligado diretamente à vontade absoluta, e se manifesta em toda e qualquer ocasião. Somos condenados à liberdade.
  
3 - Liberdade em Agostinho e Sartre

            Quando observamos o conceito de liberdade no livre arbítrio de Agostinho e no pensamento de Sartre é possível compreender que tanto um quanto o outro trata da livre escolha. O que fará diferença entre ambos é que enquanto Sartre chama o poder da vontade, da livre escolha, do livre arbítrio de liberdade, isto num sentido absoluto, Agostinho atribui ao livre arbítrio, esse poder de escolha, o conceito de elemento neutro, um instrumento que pode levar à liberdade.
            Se para Sartre qualquer escolha que o homem faça, qualquer conduta pela qual opte já pode ser chamada de liberdade, para Agostinho o poder de escolha é apenas o livre arbítrio, um bem concedido por Deus que é "Todo Bem". Embora esse bem possa conduzir ao mal ou à liberdade (conhecimento da verdade de Deus).
            É preferível que se veja a questão da liberdade pela postura assumida por Agostinho em escritos posteriores ao livre arbítrio ao admitir que matamos a nós mesmos na queda, mas não podemos nos trazer de volta. A verdadeira liberdade teria sido perdida na queda. E, segundo o mesmo Agostinho defende em "Graça e livre arbítrio" nossa liberdade está em Deus, pois é ele que nos faz agir ao exercer eficazmente sobre a nossa vontade, isto é, até a nossa livre escolha é dom de Deus.
            Tanto Sartre quanto Agostinho se limitaram apenas a ver no homem o autor do seu destino. Este admitindo que no "livre arbítrio" o homem pode escolher a liberdade, aquele defendendo que o próprio poder de escolha já é a liberdade, para o bem ou para o mal.  Faltando alguma atribuição às causas externas, ou melhor, a principal Causa externa, a ação de Deus, que o mesmo Agostinho trabalha em momentos posteriores, defendendo que apenas o nosso representante federal, Adão, teve o poder de livre arbítrio, todos os seus descendentes já nasceram sob escravidão, cabendo ao divino o poder de dá-lhes a liberdade.