O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

2 de agosto de 2017

O que pensou Aristóteles sobre Deus, a alma, as virtudes e a felicidade


O QUE PENSOU ARISTÓTELES SOBRE DEUS, A ALMA, AS VIRTUDES E A FELICIDADE

Gilson Soares dos Santos

I_ Aristóteles

     Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira e morreu em Atenas. Foi aluno de Platão e tutor de Alexandre, o grande.  Tratou de diversos temas em seus escritos filosóficos, por exemplo, física, metafísica, lei, poesia, drama, música, lógica, retórica, governo, ética, psicologia, biologia e zoologia. Era filho de Nicômaco, que era médico. Aos 17 anos partiu para Atenas, na Grécia, e lá tornou-se discípulo de Platão. Veremos os pontos principais de Aristóteles que podem estar ligados a questões religiosas.

1.1_ Sobre Deus

     Para Aristóteles, Deus é o MOTOR IMÓVEL. Deus é a substância supra-sensível. Como ele chegou a essa tese do Motor Imóvel? Buscando as causas e os primeiros princípios. Segundo ele, “quem busca as causas e os princípios primeiros necessariamente deve encontrar Deus, porque Deus é a causa e o princípio primeiro por excelência.”[1]. Vejamos como ele descreve o Motor Imóvel, que é Deus, da seguinte maneira:

"De tal principio, portanto, dependem o céu e a natureza. E o seu modo de viver é o mais excelente: é aquele modo de viver que só nos é concedido por breve tempo. E Ele está sempre nesse estado. Para nós, isso é impossível, mas para Ele não é impossível, porque o ato do seu viver é prazer. Também para nos são sumamente agradáveis a vigília, a sensação e o conhecimento, precisamente porque são ato e, em virtude disso,
também esperanças e recordações. (. ..) Assim, se nessa feliz condição em que por vezes nos encontramos Deus se encontra perenemente, isso é maravilhoso; se Ele se
encontra em uma condição superior, é ainda mais maravilhoso. E Ele efetivamente se encontra nessa condigção. Ele também é Vida, porque a atividade da inteligência é vida e Ele é precisamente essa atividade. E sua atividade, que subsiste por si mesma, é vida ótima e eterna. Com efeito, dizemos que Deus é vivente, eterno e ótimo, de modo que a Deus pertence uma vida perenemente contínua e eterna: isso, portanto, é Deus.".[2].

     Giovani Reale e Dario Antiseri, em História da Filosofia, Vol 1, ainda traz o seguinte comentário sobre o Deus, segundo Aristóteles:

Mas o que pensa Deus? Deus pensa o que é mais excelente. E a coisa mais excelente
é o próprio Deus. Deus, portanto, pensa a si mesmo, é atividade contemplativa de si mesmo: "é pensamento de pensamento". [...] Deus, portanto, é eterno, imóvel, ato puro, privado de potencialidade e de matéria, vida espiritual e pensamento de pensamento. Sendo assim, obviamente, "não pode ter nenhuma grandeza", devendo ser "sem partes e indivisível". E também deve ser "impassível e inalterável".[3].

1.2_ Sobre a alma

     Vejamos, segundo Reale e Antiseri, como Aristóteles descrevia a alma:

A alma e a "forma" (em sentido ontológico), a "entelequia" (isto é, o ato, a perfeição) de um corpo. Todavia, os seres vivos não tem todos as mesmas funções e, portanto, terão princípios vitais (ou seja, almas) diferentes, conforme as funções especificas que lhes são próprias:
1) os vegetais, que podem apenas reproduzir-se e crescer, A alma terão alma adequada a estas suas faculdades, ou seja, alma e suas atividades vegetativa;
2) os animais, que tem também percepção do mundo e capacidade de movimento, seriam igualmente dotados de alma sensitiva;
3) finalmente, os homens que têm também a faculdade de raciocinar seriam providos, além de alma vegetativa e de alma sensitiva, igualmente de alma racional.[4].

     Aristóteles não cria, como Platão, na imortalidade da alma. Para ele, a alma não existe fora do corpo. Segundo seu ensino, no Livro De Alma, a alma nada sente, nada sofre sem o corpo. Alma não subsiste fora do corpo nem o corpo existe sem a alma. Os dois formam uma unidade. Sendo assim, Aristóteles não era Dicotomista (corpo e alma), não era Tricotomista (corpo, alma e espírito), porém, era Monista (o corpo e a alma formam uma unidade, de modo que um não existe sem o outro).

1.3_ Sobre virtude

     Aristóteles falava sobre a virtude ética a qual é adquirida com a repetição de uma série de atos sucessivos, ou seja, através do hábito.

Assim, as virtudes tornam-se como que "hábitos", "estados" ou "modos de ser" que nós mesmos construímos segundo o modo indicado. Como são muitos os impulsos e tendências que a razão deve modelar, também são muitas as "virtudes éticas", mas todas tem uma característica essencial comum: os impulsos, as paixões e os sentimentos tendem ao excesso ou à falta (ao muito ou ao muito pouco); intervindo, a razão deve impor a "justa medida", que é o caminho intermediário ou "meio-termo" entre os dois excessos. A coragem, por exemplo, é o caminho intermediário entre a temeridade e a timidez, e a liberalidade é o justo meio entre a prodigalidade e a avareza.[5].
     Lembremos que “meio termo” aqui não é o mesmo que mediocridade. Porém “meio termo” é “uma culminância”, é um valor, é, na verdade, a vitória da razão sobre os instintos.

Dentre todas as virtudes éticas, destaca-se a justiça, que é a "justa medida" segundo a qual se distribuem os bens, as vantagens, os ganhos e seus contrários. E, como bom grego, Aristóteles reafirma o mais elevado elogio a justiça: "Pensa-se que a justiça é a mais importante das virtudes, e que nem a estrela vespertina nem a estrela matutina sejam tão dignas de admiração quanto ela. E com o provérbio dizemos: 'Na justiça esta compreendida toda virtude."[6].

1.4_ Sobre a felicidade

Todas as ações humanas tendem a "fins" que são "bens". O conjunto das ações humanas e o conjunto dos fins particulares para os quais elas tendem subordinam-se a um "fim ultimo", que é o "bem supremo", que todos os homens concordam em chamar de "felicidade".[7].

     Mas, o que é felicidade, segundo Aristóteles? Em primeiro lugar, vejamos o que não é a felicidade, segundo o filósofo:

Para a maioria, é o prazer e o gozo. Mas uma vida gasta com o prazer é uma vida que torna "semelhantes aos escravos", e "digna dos animais". [...] Para alguns, a felicidade é a honra (para o homem antigo, a honra correspondia aquilo que é o sucesso para o homem de hoje). Mas a honra é algo extrínseco que, em grande parte, depende de quem a confere. E, de qualquer maneira, vale mais aquilo pelo qual se merece a honra do que a própria honra, que é resultado e consequência. Para outros, a felicidade está em juntar riquezas. Mas esta, para Aristóteles, é a mais absurda das vidas, chegando mesmo a ser vida "contra a natureza", porque a riqueza é apenas meio para outras coisas, não podendo portanto valer como fim.[8].

     Reale e Antiseri nos mostram em que consiste a felicidade, segundo Aristóteles:

O bem supremo realizável pelo homem (e, portanto, a felicidade) consiste em aperfeiçoar-se enquanto homem, ou seja, naquela atividade que diferencia o homem de todas as outras coisas. Assim, não pode consistir no simples viver como tal, porque até os seres vegetativos vivem; nem mesmo viver na vida sensitiva, que é comum também aos animais. Só resta, portanto, a atividade da razão. O homem que deseja viver bem deve viver, sempre, segundo a razão.[9].



[1]  REALE, Giovani. ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia pagã antiga. Vol 1. São Paulo: Paulus. 2003. p.195.
[2]  Idem. p.202.
[3]  Idem.
[4]  Idem. p.212.
[5]  Idem. p.219-220.
[6]  Idem..
[7]  Idem. p.218.
[8]  Idem.
[9]  Idem.