O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

14 de setembro de 2012

A Reforma da Filosofia em Ludwig Feuerbach


A REFORMA DA FILOSOFIA EM LUDWIG FEUERBACH

Gilson Soares dos Santos

Ludwig Feuerbach (1804-1872), partindo do pressuposto de que se vive uma época nova da humanidade, apresenta a necessidade de uma reforma da filosofia, não sendo esta uma resposta à filosofia anterior, visto que, à semelhança da reforma luterana, é necessária para a sua época. Para que essa reforma aconteça é necessário o fim do cristianismo, o fim da religião. Propondo uma redução da teologia e da religião à antropologia

Para Feuerbach há inteira diferença entre uma filosofia que se situa numa época que é um estágio sucessivo da época anterior e uma filosofia que incide num período totalmente novo da humanidade. Uma filosofia que se incide numa nova era da humanidade não pode ser uma resposta às filosofias anteriores, deve ser essencialmente diversa. Para ele, a reforma da filosofia é necessária e deve corresponder à necessidade da época, da humanidade. Pois a verdadeira necessidade está na exigência do futuro, no futuro antecipado, no movimento para frente. É preciso ser absolutamente negativo para criar a novidade. Essa reforma, para Feuerbach, pressupõe o fim do cristianismo, o fim da religião, que é um fato totalmente humano. É a negação do cristianismo que põe a necessidade da reforma da filosofia. Não uma negação qualquer, mas uma negação consciente, e é essa negação que funda uma filosofia nova, “resolutamente acristã”.
            
Segundo Feuerbach o cristianismo é negado mesmo por aqueles que tentam sustentá-lo. O cristianismo é um simples nome e já não corresponde nem ao homem teórico, nem ao homem prático; não satisfaz ao espírito nem ao coração. Para ele, a filosofia prevalente está atrelada à decadência do cristianismo, embora pretendesse ser a sua negação. Logo, uma filosofia que, de fato, ponha fim ao cristianismo, que exclua Deus das questões filosóficas e atente para o homem e as questões sociais é a filosofia necessária da nova era da humanidade.
            
A filosofia necessária, segundo Feuerbach, é uma filosofia que tome o lugar da religião, pois para substituir a religião, a filosofia deve tornar-se religião enquanto filosofia, introduzindo em si mesma aquilo que constitui a essência da religião. É claro, de um modo a ela conforme. Por isso, uma filosofia totalmente diversa deve entrar no lugar da filosofia antiga.
            
A religião, na concepção de Feuerbach, é um fato totalmente humano. Sempre desempenhou um papel fundamental na história do homem concreto. Segundo ele, a religião é, na verdade, a projeção da essência do próprio homem. A religião não passa das relações do homem consigo mesmo. Em outras palavras, não é Deus que cria o homem, mas o homem que cria Deus. Conhecemos o homem pelo seu Deus. O homem constrói a divindade sem nela se reconhecer. É hora desse mesmo homem substituir o divino. O espírito dessa era é o do realismo. Nesse entendimento, é hora também de tornarmo-nos novamente religiosos, não com a religião que cria um Deus, mas com a política transformada em religião, abandonando um Deus distinto do homem. Essa desconfiança em Deus funda o Estado.

O Estado é a realidade e a refutação prática da fé religiosa. O Estado torna-se o deus dos homens, uma vez que estes estão sem deus no Estado. Acontece aqui, ao mesmo tempo, uma refutação e uma realização da fé religiosa. Há uma refutação em relação a Deus, mas a crença passa a ser agora no Estado. O Deus do céu é substituído por outra divindade, o homem. “O Estado (verdadeiro) é o homem ilimitado, infinito, verdadeiro, completo, divino.”. O Estado é o homem absoluto. O ateísmo prático é o vínculo dos Estados. 

Feuerbach não vai negar a unidade entre finito e infinito. O espírito absoluto é o espírito finito. Na religião o infinito está fora do homem, no Estado o infinito está no homem. Na religião o infinito se realiza em Deus ou na idéia absoluta, no Estado o infinito se realiza no homem. No singular o homem é finito, na coletividade ele é infinito. O infinito está contido no homem, embora o homem seja finito.

Assim Feuerbach apresenta teses provisórias para a reforma da filosofia. A nova filosofia deve entender que o núcleo secreto da teologia é a antropologia. “A consciência resoluta, tornada carne e sangue, de que o humano é o divino e o finito é o infinito” é a fonte da nova filosofia. Sua tarefa não é reconhecer o infinito como o finito nem transpor o finito para o infinito, mas trazer o infinito para o finito. Pois o começo da filosofia não é a idéia absoluta, mas o finito. Isso é um contraponto ao caminho apresentado pela filosofia especulativa (teologia) que parte do abstrato para o concreto, do ideal para o real. O caminho da filosofia especulativa nunca permite chegar à realidade verdadeira.

É partindo do conhecimento dos seres e das coisas como são que a filosofia encontra sua mais elevada tarefa. Só há pensamento através da sensação, sensualismo. Isso opõe-se à abstração, mas coloca a realidade humana em sua abstração. O homem não deve deslocar o ser para fora de si antes de encontrá-lo em si. Começa pelo finito e neste encontra o infinito. O começo da filosofia é o finito, o real, pois o infinito não pode pensar-se sem o infinito.

A nova filosofia é caracterizada pelo antropoteísmo, que é a religião autoconsciente, a religião que a si mesmo se compreende. A nova filosofia deve negar a filosofia como qualidade abstrata, particular. Nela o homem sabe que é a essência autoconsciente da natureza, a essência dos Estados, da história e da religião. A nova filosofia apresenta-se como filosofia positiva.

A reforma da filosofia de Ludwig Feuerbach desvinculada de uma filosofia anterior é, portanto, uma filosofia que reflete o humanismo. Uma reforma necessária à época, época da humanidade, envolvendo a negação do cristianismo, de maneira consciente, e atentando para o homem e suas questões sociais, partindo, é claro, das necessidades da humanidade. Uma filosofia do homem, uma antropologia. Do homem que compreende a si mesmo, uma filosofia identificada como antropoteísta, com ênfase na empiria. Pois “O homem é a existência da liberdade, a existência da personalidade, a existência do direito.”
           
           


BIBLIOGRAFIA

FEUERBACH. Ludwig, Princípios da Filosofia do Futuro e outros escritos. Pag. 13-35. Tradução: Artur Morão. Lisboa / Portugal: Edições 70, LTD.